A cadeia produtiva do leite atravessa uma mudança de
paradigma no Brasil. Durante décadas, a matéria-prima foi valorizada
principalmente pelo volume captado e comercializado. Agora, indicadores de qualidade,
composição e rendimento industrial ganham espaço nas negociações entre
produtores, cooperativas e laticínios.
A transformação, porém, não significa que a quantidade tenha
perdido importância. Em artigo sobre o tema, a pesquisadora da área de Pecuária
do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), Natália Grigol,
destaca que volume e qualidade desempenham funções complementares na
organização e na rentabilidade da cadeia leiteira.
Enquanto a qualidade influencia o valor recebido por litro e
o aproveitamento industrial, o volume contribui para ocupar as fábricas, diluir
custos fixos e sustentar a escala mínima das operações.
Sólidos determinam rendimento industrial do leite
Embora tradicionalmente comercializado por litro, o leite é
uma emulsão formada por diferentes componentes. Entre eles, gordura e proteína
têm papel decisivo no rendimento da indústria e na fabricação de queijos,
manteiga, leite em pó e outros derivados.
Dois volumes iguais de leite podem, portanto, apresentar valores
industriais diferentes. Quanto maior a concentração de sólidos, maior tende a
ser o aproveitamento da matéria-prima durante o processamento.
Essa lógica tem levado empresas e produtores a observar não
apenas quantos litros são produzidos, mas também quanto cada litro entrega em
termos de gordura, proteína e rendimento.
A evolução das normas brasileiras contribuiu para consolidar
esse movimento. Desde a Instrução Normativa 51, publicada em 2002, até as INs
76 e 77, de 2018, a regulamentação passou a estabelecer critérios mais
rigorosos para a avaliação do leite cru.
Parâmetros como Contagem Bacteriana Total (CBT), Contagem de
Células Somáticas (CCS), sólidos totais e lactose anidra passaram a integrar a
análise da matéria-prima.
Com essa evolução, o pagamento por qualidade ganhou força na
relação comercial entre produtores e indústrias. O modelo permite oferecer
bonificações ao leite que atende determinados padrões sanitários e de
composição, ao mesmo tempo em que pode aplicar descontos quando os resultados
ficam abaixo das exigências estabelecidas.
Além de favorecer a indústria, o sistema estimula
investimentos nas propriedades em higiene da ordenha, refrigeração, sanidade do
rebanho, nutrição e melhoramento genético.
Laticínios priorizam qualidade na compra
Uma pesquisa de campo realizada com representantes de 33
laticínios e cooperativas, responsáveis por aproximadamente 25% do leite industrializado
no Brasil, mostra a relevância crescente desses critérios.
Entre os entrevistados, 75,8% concordaram, em algum grau,
que a qualidade é mais importante do que a escala diária de produção no
processo de aquisição do leite cru.
O resultado indica que os compradores passaram a avaliar com
maior atenção a regularidade, a composição e as condições sanitárias da
matéria-prima. Produtores capazes de entregar leite dentro dos padrões exigidos
podem conquistar bonificações, prioridade na captação e maior poder de
negociação.
Apesar do avanço da qualidade, a escala permanece
fundamental para a viabilidade econômica das indústrias. Levantamentos
setoriais indicam que os maiores laticínios brasileiros operaram, na última
década, com utilização média de 65,5% da capacidade instalada.
Isso significa que aproximadamente 34,5% da estrutura
permaneceu ociosa. Ao mesmo tempo, o potencial produtivo doméstico avançou
apenas 1,4% no período, aumentando a disputa entre empresas pela captação de
matéria-prima.
Nesse cenário, garantir volume é necessário para manter as
unidades em funcionamento e distribuir os custos fixos por uma quantidade maior
de produtos. Em síntese, a qualidade valoriza o litro, enquanto o volume ajuda
a sustentar a estrutura industrial.
A importância de cada variável também depende do portfólio
da empresa. Laticínios concentrados em derivados com maior demanda por gordura
e proteína podem valorizar mais os sólidos, enquanto operações voltadas a
produtos de grande escala dependem fortemente de regularidade e volume.
Mercado pode avançar do preço por litro para o valor dos
sólidos
Em importantes mercados internacionais, a remuneração e as
comparações de eficiência já consideram o valor dos sólidos presentes no leite,
e não somente o preço por litro.
Indicadores baseados em leite corrigido para sólidos
permitem comparar sistemas produtivos com composições diferentes e avaliar com
mais precisão quanto da matéria-prima pode ser transformado em derivados.
No Brasil, a adoção mais ampla dessa lógica representaria
uma continuidade do pagamento por qualidade. A mudança exigiria, entretanto,
padronização, transparência e dados confiáveis sobre gordura, proteína e demais
componentes.
A discussão sobre qualidade também alcançou as informações
utilizadas na formação do Indicador do Leite ao Produtor do Cepea. Segundo
Natália Grigol, a questão central deixa de ser apenas o tamanho da amostra e
passa a envolver a integridade, a rastreabilidade e a possibilidade de
comprovação dos dados enviados.
No primeiro semestre de 2026, a base utilizada pelo centro
representou quatro de cada cinco litros captados no Rio Grande do Sul e três de
cada cinco litros em Minas Gerais, considerando a comparação com os números
oficiais do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Após alcançar elevada representatividade nesses estados, o
debate avançou para a necessidade de qualificar as informações recebidas.
Auditoria e tecnologia devem ampliar confiabilidade dos
dados
Durante a Reunião Anual da Pesquisa do Preço do Leite ao Produtor, realizada em agosto, em Piracicaba, foram discutidas novas medidas para fortalecer a robustez do indicador.
Entre as propostas estão a implantação de auditorias mensais
posteriores ao envio das informações, com exigência de comprovação documental,
e a adoção de uma Interface de Programação de Aplicações (API) como meio padrão
para transmissão dos dados.
O sistema permitiria incorporar criptografia,
rastreabilidade e maior controle desde a origem das informações. O objetivo não
seria limitar a participação dos colaboradores, mas assegurar que os dados
utilizados no cálculo sejam íntegros, verificáveis e tecnicamente consistentes.
Uma eventual redução da amostra provocada por exigências
mais rigorosas também deverá ser analisada. Uma base numerosa não garante,
isoladamente, a qualidade do resultado quando as informações não podem ser
comprovadas.
Confiança no indicador depende de responsabilidade
compartilhada
O indicador do Cepea é utilizado como referência em
negociações, contratos e análises do mercado de leite. A confiabilidade dessa
ferramenta depende tanto da metodologia aplicada pelo centro de pesquisa quanto
da qualidade das informações encaminhadas por laticínios, cooperativas e demais
colaboradores.
Cabe ao Cepea estabelecer critérios, realizar verificações e
aperfeiçoar continuamente o cálculo. Ao mesmo tempo, as organizações
participantes precisam fornecer dados verdadeiros, completos e rastreáveis.
Essa coordenação é necessária para que o indicador
represente corretamente o comportamento do mercado e continue sendo utilizado
como referência pelos agentes da cadeia.
O dilema entre quantidade e qualidade não exige a escolha
definitiva de uma das duas variáveis. A cadeia leiteira precisa de volume para
abastecer o mercado e utilizar a capacidade industrial, mas também necessita de
qualidade para elevar o rendimento, valorizar os derivados e melhorar a
remuneração dos produtores.
O mesmo princípio vale para as informações que sustentam a
formação dos preços. Amostras representativas são importantes, mas devem estar
acompanhadas de integridade, transparência e rastreabilidade.
O próximo estágio de amadurecimento do setor passa,
portanto, pela combinação dessas duas frentes: produzir mais leite, com maior
concentração de sólidos e melhor qualidade sanitária, enquanto se constroem
indicadores baseados em dados confiáveis e verificáveis.

