A possibilidade de aumento das chuvas previsto para os
próximos meses em Santa Catarina acende um alerta para o desenvolvimento do
arroz. Com o El Niño classificado como muito forte pela Climate Prediction
Center (CPC), da National Oceanic and Atmospheric Administration (NOAA), a
expectativa é de volumes de chuva acima da média durante a primavera e o verão,
principalmente entre outubro e dezembro. O cenário exige atenção dos produtores
no manejo das áreas cultivadas para evitarem doenças e preocupa também as
indústrias que projetam possíveis impactos nos custos de beneficiamento.
Para o presidente do Sindicato das Indústrias de Arroz de
Santa Catarina (SindArroz-SC), Walmir Rampinelli, os efeitos climáticos
precisam ser acompanhados com atenção porque podem afetar tanto o campo quanto
a indústria. “Quando recebemos um arroz com maior quantidade de grãos
danificados, a indústria precisa intensificar o processo de seleção para
garantir a qualidade do produto que chega ao consumidor. Isso representa um
custo maior de beneficiamento e uma perda no rendimento, já que parte dos grãos
precisa ser descartada. Ou seja, além da redução na produtividade no campo,
temos um impacto direto no aproveitamento da matéria-prima dentro das
indústrias”, ressalta.
De acordo com dados da Empresa de Pesquisa Agropecuária e
Extensão Rural de Santa Catarina (Epagri/Ciram), os meses de outubro, novembro
e dezembro devem registrar chuva acima da média, com possibilidade de
temporais, raios, granizo e vendavais. Para o SindArroz-SC, o acompanhamento
das condições climáticas é essencial para compreender os efeitos do fenômeno
sobre a cadeia produtiva, do campo à indústria.
Segundo o engenheiro agrônomo Douglas George de Oliveira,
especialista em arroz irrigado da Epagri, o excesso de chuva pode prejudicar o desenvolvimento
das plantas e, em alguns casos, provocar inundações em áreas de cultivo. “A
constância de dias chuvosos também reduz a incidência de radiação solar, fator
essencial para o crescimento do arroz. Sem contar que uma quantidade maior de
chuva aumenta o número de dias nublados, o que reduz a entrega de radiação
solar para as plantas se desenvolverem. Isso já compromete a produtividade”,
detalha.
Redução na
produtividade
Para a safra 26/27, os dados da Epagri/Cepa projetam uma
redução de 7,3% de produtividade média em relação à safra 25/26. Embora a área
plantada não apresente alteração, a estimativa aponta diminuição de 7,3% na
quantidade produzida. Os números refletem a preocupação com os efeitos do
excesso de chuva e da menor luminosidade sobre o desenvolvimento do arroz.
Na fase inicial da cultura, parte dos impactos ainda pode
ser recuperada, conforme explica o engenheiro agrônomo. No entanto, se a
instabilidade climática se prolongar até janeiro, período de floração do grão,
os prejuízos tendem a ser mais significativos.
A combinação entre chuva frequente, aumento da temperatura e
umidade elevada cria um ambiente favorável ao surgimento de doenças nas
plantas. Além disso, o excesso de água pode dificultar a entrada dos produtores
nas lavouras para a aplicação de defensivos agrícolas e comprometer etapas
importantes do desenvolvimento do arroz.
“Por isso, o produtor tem que projetar sua lavoura para uma
expectativa de produção não tão alta quanto a do ano passado, não adianta fazer
os mesmos investimentos e esperar colher o mesmo, pois dificilmente deve se
concretizar. O produtor tem que ter em mente que não consegue compensar o
problema climático aplicando mais insumos, como o adubo”, aconselha Oliveira.
Prevenção de doenças
na planta
Entre os riscos associados ao período de maior umidade está
as doenças fúngicas como a mancha-parda ou mancha-de-grãos, doença que pode
afetar o arroz e comprometer o desenvolvimento da planta e a qualidade do grão.
O problema tende a ser favorecido por condições de tempo úmido, baixa radiação
solar e temperaturas elevadas, cenário que pode se intensificar durante a
atuação do El Niño.
O doutor em agrometeorologia da Epagri, Márcio Sônego,
afirma que o El Niño deve permanecer até maio de 2027 e reforça que os impactos
podem ocorrer tanto por eventos extremos quanto pela manutenção de um ambiente
mais úmido nas lavouras.
“O El Niño tem risco maior de temporais com ventania e
granizo, o que pode causar danos pontuais, localizados. O maior dano é o
excesso de chuva com umidade, mais manchas de colmo, que faz o arroz cair com
os vendavais, e o menor índice de radiação solar”, aponta.
Naturalmente, a primavera já é um período mais chuvoso e com
menor incidência de radiação solar. Neste ano, porém, o cenário exige atenção
redobrada dos produtores, especialmente entre novembro e dezembro, quando a
previsão indica maior volume de chuva.
Sobre o SindArroz-SC
Fundado no ano de 1975, o Sindicato das Indústrias do Arroz
de Santa Catarina (SindArroz-SC) atua como representante das empresas
cerealistas do estado. Com 27 indústrias associadas, a entidade tem como um dos
principais objetivos conquistar melhorias para toda a cadeia produtiva do
alimento, bem como servir como ponte para beneficiadoras do grão. A rizicultura
catarinense é responsável por 15% do abastecimento nacional e gera milhares de
empregos no solo catarinense, além de em outras regiões do país.