Muitas vezes subestimado na rotina familiar, o sono exerce um papel fundamental no desenvolvimento físico, cognitivo e emocional de crianças e adolescentes. Mais do que um momento de descanso, é durante o sono que o corpo realiza ajustes essenciais — como a liberação do hormônio do crescimento e a consolidação da memória.
Apesar disso, estudos recentes apontam que boa parte da população jovem brasileira tem dormido menos do que deveria, o que pode gerar impactos duradouros na saúde e no desempenho escolar.
O que acontece no corpo durante o sono?
Ao contrário do que parece, o cérebro não “desliga” quando dormimos. Ele passa por ciclos de atividade intensos, responsáveis por diversas funções vitais:
- Consolidação das memórias e aprendizado de novos conteúdos;
- Liberação do hormônio do crescimento (GH), fundamental para o desenvolvimento físico;
- Regulação do humor e das emoções;
Reparo de tecidos e fortalecimento do sistema imunológico.
Segundo especialistas da Sociedade Brasileira do Sono, a qualidade e a quantidade do sono são tão importantes quanto uma alimentação saudável e a prática regular de atividades físicas para a formação saudável de crianças e adolescentes.
Quais os riscos da privação de sono na infância e adolescência?
Dormir pouco pode parecer algo inofensivo, mas os efeitos no organismo vão muito além do cansaço. O déficit de sono impacta diretamente o funcionamento de áreas do cérebro ligadas ao controle de impulsos, tomada de decisões e equilíbrio emocional.
Entre as consequências mais comuns estão:
- Déficit de atenção e dificuldades de aprendizagem;
- Oscilações de humor, irritabilidade e maior propensão à ansiedade ou depressão;
- Aumento no risco de obesidade e problemas metabólicos, devido à desregulação dos hormônios da fome e saciedade;
- Queda na imunidade, com maior propensão a doenças.
Além disso, a privação crônica de sono pode afetar o rendimento escolar e comprometer habilidades sociais.
Adolescência e sono: o que muda?
É comum que adolescentes tenham mais dificuldade para dormir cedo. E isso tem explicação científica. Nessa fase, o corpo passa por uma alteração natural no chamado “ritmo circadiano”, provocando o que especialistas chamam de atraso de fase do sono.
Ou seja, o corpo passa a liberar melatonina — hormônio que induz o sono — mais tarde do que em crianças ou adultos.
Com o início das aulas geralmente marcado para às 7h da manhã, muitos jovens acabam dormindo menos do que o necessário. A desconexão entre o ritmo biológico e as exigências da rotina escolar pode levar a:
- Sonolência diurna constante;
- Irritabilidade;
- Piora no desempenho escolar e na concentração.
Dados preocupantes sobre insônia em jovens
Um estudo publicado em 2024 no European Journal of Pediatrics revela índices elevados de insônia crônica entre jovens:
- 15% a 30% entre crianças de 3 a 5 anos;
- 11% a 15% em crianças de 6 a 12 anos;
- 20% a 30% entre adolescentes.
Segundo os pesquisadores, não se trata apenas de hábitos inadequados. Alterações hormonais e sociais — como uso excessivo de telas, pressões escolares e falta de rotina — também contribuem para esse cenário.
A importância da educação do sono
A promoção de hábitos saudáveis relacionados ao sono deve começar cedo — assim como o ensino de higiene ou alimentação equilibrada. Especialistas defendem que o tema seja abordado tanto nas escolas quanto em casa, de forma contínua.
“A educação do sono é uma ferramenta preventiva poderosa. Pode evitar problemas de saúde mental, física e escolar no futuro”, afirma a neurocientista Luciana Gallo, pesquisadora em neurodesenvolvimento infantil.
Dicas práticas para melhorar o sono dos jovens
Para ajudar crianças e adolescentes a dormirem melhor, algumas atitudes simples podem fazer diferença:
Estabelecer horários regulares para dormir e acordar, mesmo nos fins de semana;
- Evitar telas (celulares, tablets, TVs) pelo menos duas horas antes de dormir;
- Criar um ambiente escuro, silencioso e confortável, sem estímulos visuais ou sonoros excessivos;
- Limitar o consumo de cafeína e outros estimulantes no final do dia;
- Encorajar pausas e momentos de relaxamento antes de dormir, como leitura ou banho morno.
Fonte : Hospital Albert Einstein Foto: Freepik

