A reaproximação entre Brasília e Nova Délhi busca abrir novos mercados para o agronegócio e o petróleo brasileiro.

A crescente tensão comercial com os Estados Unidos, agravada pelas tarifas impostas pelo ex-presidente Donald Trump, reacendeu uma antiga parceria: Brasil e Índia. Diante das sobretaxas americanas que afetaram ambos os países, os governos de Luiz Inácio Lula da Silva e Narendra Modi veem uma oportunidade estratégica de fortalecer os laços econômicos bilaterais.

Mais do que um movimento conjuntural, trata-se de uma guinada diplomática voltada à diversificação de mercados, especialmente em um cenário global de incertezas e realinhamentos geopolíticos.

A Índia como aposta estratégica do Brasil

A Índia, com mais de 1,4 bilhão de habitantes e uma economia em rápida expansão, tem se consolidado como um dos principais centros industriais e tecnológicos do planeta. Ainda assim, para o Brasil, esse mercado continua pouco explorado.

Segundo dados do governo brasileiro, mais de 60% das exportações nacionais para a Índia se concentram em apenas três itens: óleos vegetais, açúcar e petróleo bruto. O objetivo agora é mudar esse quadro, apostando na diversificação e na ampliação do acordo comercial vigente entre os dois países.

“O mercado indiano tem potencial para absorver uma variedade muito maior de produtos brasileiros, especialmente do agronegócio”, afirmou um técnico do Ministério da Agricultura à CNN Brasil.

Três frentes para aumentar as exportações brasileiras

O esforço do governo federal se desdobra em três frentes:

1. Aproveitar a lacuna deixada pelo petróleo russo

Com a intensificação das tensões entre Rússia e países ocidentais, a Índia tem sido pressionada a reduzir sua dependência energética de Moscou. Hoje, cerca de 30% do petróleo consumido pelo país asiático vem da Rússia. O Brasil, que representa apenas 1% desse volume, enxerga uma janela de oportunidade para crescer nesse segmento.

Apesar de ainda modesta, a exportação de petróleo bruto brasileiro para a Índia já é o segundo item mais relevante da pauta bilateral. Um recuo nas importações indianas de petróleo russo poderia abrir espaço para mais produtos brasileiros.

2. Expandir mercados para o agronegócio

A ofensiva brasileira passa também por produtos como algodão, óleos vegetais, etanol, pulses (grãos como lentilha, grão-de-bico e feijão), frutas, genética bovina, suco de laranja, carne de aves, pescado e café.

O Ministério da Agricultura vê a Índia como um mercado promissor, mas altamente protegido. Barreiras sanitárias e tarifas elevadas dificultam a entrada de muitos produtos. Ainda assim, há avanços sendo costurados em missões comerciais e acordos sanitários bilaterais.

3. Revisar o acordo com o Mercosul

O Brasil tenta convencer a Índia a revisar o Acordo de Comércio Preferencial assinado com o Mercosul. Atualmente, esse tratado cobre apenas 14% das exportações brasileiras para o país asiático. São 450 categorias de produtos, em um universo de cerca de 10 mil, com cortes tarifários tímidos, entre 10% e 20%.

A proposta brasileira é incluir mais itens, sobretudo do agronegócio, e negociar reduções mais expressivas nas tarifas. O objetivo é tornar os produtos brasileiros mais competitivos frente a concorrentes como a Austrália e países da África, que já contam com acordos mais vantajosos com Nova Délhi.

Implicações geopolíticas e comerciais

O esforço do Brasil para se aproximar da Índia também dialoga com um cenário internacional em transformação. Com os Estados Unidos adotando políticas comerciais mais protecionistas e tensões crescentes com a China, países emergentes buscam alternativas para manter o dinamismo de suas economias.

Além disso, Índia e Brasil compartilham interesses comuns em fóruns como o BRICS e a OMC, o que facilita o alinhamento diplomático. Essa sintonia pode ser determinante na construção de uma parceria mais robusta no médio e longo prazo.

“Estamos falando de duas grandes democracias do Sul Global, com enorme complementaridade econômica”, avaliou um diplomata ouvido sob condição de anonimato.

Fonte: CNN / Foto: @cgisaopaulo